Projeto Infantil Pedagógico

Nossa proposta pedagógica conta com três eixos fundamentais, que são nossa inspiração e orientação diária do trabalho junto às crianças:

  1. Teoria do Apego (Psicólogo inglês John Bowlby),
  2. Sócio-interacionismo (Psicólogo bielo-russo Vygotsky),
  3. Pikler – abordagem com foco no desenvolvimento neuropsicomotor para bebês até 3 anos (Médica húngara Emmi Pikler)

2016-01-12_1822

Leia mais:

Me sopre novamente as canções
Com que você me engana
Que blusa você, com o seu cheiro
Deixou na minha cama?
Você, quando não dorme
Quem é que você chama?

E à noite, pra quem
Você é uma luz
Debaixo da porta?
No sonho de quem
Você vai e vem
Com os cabelos
Que você solta?
Que horas, me diga que horas, me diga
Que horas você volta?

Você, você. Chico Buarque

 

A canção de Chico Buarque foi composta a partir da observação da relação de seu neto com a mãe. Ao perguntar ao menino, que começara a frequentar a creche para que a mãe retomasse as atividades profissionais, sobre o que fazia na “escolinha” Chico recebeu a sincera resposta:

– Eu espero mamãe.

E a mãe, certamente, ainda que feliz por retomar sua vida profissional, compartilhava desta resignada espera…

A experiência da maternidade é sempre única em muitos sentidos, mas alguns aspectos desta vivência se compartilhados podem se tornar mais suaves.

A volta ao trabalho das mães de crianças pequenas é sem dúvidas um momento importante de retomada de aspectos cruciais para a mulher que investiu em sua carreira, que empreende, que ama seu trabalho e que precisa dele, no entanto é também momento de tomada de decisões nem sempre fáceis sobre os filhos. Decisões que envolvem não apenas aspectos práticos e logísticos, mas, e principalmente, aspectos sutis no campo dos sentimentos, das dúvidas e da angústia de pela primeira vez se ver apartada dos pequenos ainda que por algumas horas. Estar em contato com uma rede de ajuda neste momento, conforta, acolhe e estrutura mães e filhos.

Não existe uma única saída para o impasse da retomada do trabalho, são muitas as teorias que tentam fundamentar os mecanismos emocionais na separação entre a mãe e o bebê ou filho pequeno, no entanto há cada vez mais adeptos à antiga e tão nova ideia de que o contato prolongado com a mãe, que o colo e o afago são estruturantes de saúde e felicidade e de que crescer com fortes vínculos de apego é um caminho saudável para a vivência de uma primeira infância na qual se estruturam bases sólidas para um adulto solidário, seguro, empático e afinado aos seus sentimentos.

A teoria do “attachment parenting” ou criação com apego elaborada pelo pediatra William Sears a partir da Teoria do Apego de John Bowlby ressalta que a forte ligação emocional com os pais durante a infância, também conhecida como apego seguro, é estruturante ao desenvolvimento da criança como ser integral. A Teoria do Apego, originalmente proposta por Bowlby, afirma que a criança busca proximidade com uma pessoa e se sente segura ao perceber sua presença, este apego é uma parte normal e saudável do desenvolvimento infantil.

Acreditando na intensidade das primeiras experiências da criança em seu contato com o mundo e nas marcas destas experiências sobre a vida e personalidade de cada um, nossa busca é a de proporcionar formas criativas de atender às demandas desta fase na vida das famílias, com o foco nas necessidades de desenvolvimento afetivo e cognitivo das crianças a partir do estabelecimento de vínculos seguros.

Mamaworking, um sonho nascido de uma mãe a ser partilhado com outras mães, acredita no poder do vínculo e surge como um caminho para a cooperação, acolhida e apoio às mães que retomam suas atividades profissionais e às suas crianças. É a partir da força do vínculo que uma pedagogia do afeto, da brincadeira e do respeito e atenção consistente às necessidades da criança passou a ser pensada como o cerne do trabalho de cuidado compartilhado entre pais e educadores no Espaço Infantil dentro de Mamaworking. Cuidados e recreação que se dão sob o mesmo teto onde as mães estão trabalhando, quase como uma extensão da casa, com a proximidade e flexibilidade que o momento da primeira infância exige.

O modelo de nosso projeto infantil pode ser um tanto novo, no entanto a ideia base é muito ancestral: “é preciso uma aldeia para criar uma criança”. Neste sentido a proposta para as crianças no Mamaworking é a de apoio mútuo entre pais e cuidadores, flexibilidade de horários e rotinas. Essa proposta traz e a segurança de brincar e viver as experiências infantis sob o olhar atencioso de profissionais dispostos a contribuírem para que a transição entre o espaço estritamente familiar da casa materna e o espaço da coletividade se faça com leveza.

Dos eixos de trabalho:

O eixo fundamental da nossa proposta é a interação, o fortalecimento de vínculos e o brincar criativo, considerados indissociáveis e fundamentais para o desenvolvimento cognitivo e afetivo da criança, como base para o desenvolvimento de sua expressão, liberdade, confiança, convivência e relação com outras crianças e adultos. Neste sentido o adulto se coloca ora como um parceiro de brincadeiras, ora como um fomentador de situações de desenvolvimento muitas vezes como um observador, alguém que com a criança fala e a quem escuta e auxilia a dar sentido a suas ações e reações, dando a ela a base de segurança para que brinque e aprenda livremente, se expressando em um espaço acolhedor e seguro.

O espaço de desenvolvimento foi dividido entre espaços para bebês 6 meses-2anos e para crianças entre 2 anos-5anos.

O espaços dos bebês foi pensado para atender aos bebês de 6 meses a um ano e meio, em uma rotina estruturada mas flexível que envolverá as mães em seus intervalos, para as mamadas, para as brincadeiras coletivas, para os momentos de privacidade e foco individual em seu filho.

As crianças a partir de dois anos terão a oportunidade de brincar e se desenvolver em uma rotina de oficinas pelas quais diariamente poderão ampliar as suas experiências sensoriais, expressivas, corporais, cantando, dançando, criando, brincando e se movimentando, com a possibilidade de expressar sua individualidade e desenvolver suas habilidades em diferentes linguagens: formas de expressão: gestual, verbal, plástica, dramática e musical. O dinamismo das oficinas oferece uma maior possibilidade de opções de horários por parte das mães, mas também levará em consideração as necessidades de momentos de intimidade com as mães, momentos de cuidados físicos, de alimentação e de estar em calma brincando, conversando e ouvindo histórias com sua mãe.

Os profissionais encarregados de organizar as rotinas, o espaço e protagonizar com os bebês e crianças as experiências de desenvolvimento enquanto as mães trabalham tem como escopo a intencionalidade de promover pela brincadeira, “a construção da imagem de si, do outro, o que possibilita as interações e a progressiva construção da autonomia” (ORTIZ e CARVALHO, 2012).

 

A rotina dos bebês no espaço:
A rotina é algo estruturante, em especial nos primeiros anos de vida da criança, mas a rotina não pode ser uma gaiola que não admita o espaço da individualidade dentro de um trabalho coletivo. Pensando nisso, no Mamaworking as manhãs e tardes dos bebês são pensadas para que as crianças possam ser recebidas em um espaço previamente organizado, rico em possibilidades, mas ao mesmo tempo tranquilo e acolhedor. As crianças podem experimentar atividades com objetos que possibilitarão diferentes qualidades de interação, despertando os sentidos e sua curiosidade. A sala e o quintal estarão pensados para que brinquem, se expressem e interajam com as cuidadoras e mães de maneira instigadora e segura.

A rotina abarcará momentos de acolhida e recepção na sala, com brincadeiras no espaço interno, organizado em cantos com diferentes objetos e funções; momentos de brincar no quintal, preparado para ser desafiador mas seguro a fim de abrir um novo mundo de exploração e contato com a natureza, de brincadeiras com água, com materiais artísticos cuidadosamente selecionados e com circuitos motores preparados com muito carinho; momentos de acalanto, de cuidados com o corpo do bebê, de alimentação e repouso, respeitando a individualidade de cada um; momentos de brincadeiras cantadas e tradicionais (cantilenas, parlendas, cantigas, quadrinhas, brincos, lengalengas), conectando a criança ao universo cultural que a cerca.
Em resumo:

Para que isso se efetive a organização dos tempos e espaços na rotina das crianças leva em consideração a flexibilização das atividades, a especificidades do brincar e dos cuidados com bebês, a valorização da coletividade e da sociabilização multietária nas crianças acima de um ano e meio e o entendimento da criança em sua integralidade na qual o cuidado é indissociável ao processo de desenvolvimento.

Crescer com os filhos, trabalhar enquanto eles brincam e se desenvolvem perto de você é possível, exige apenas a capacidade de pensar na contramão da pressão do tempo acelerado, das rotinas rigorosas e da lógica que quer impor a setorização da vida em limites rígidos entre o que é trabalhar e o que é viver. Acreditamos nisso. Estamos aqui por isso.

 

Sobre a autora do Projeto:

Andréa Cordeiro é mãe de Laura (21), Helena (20), Benjamin (5) e experimentou diferentes alternativas para conciliar a vida acadêmica e profissional à criação de seus filhos. Pedagoga e Doutora em Educação pela UFPR, sua tese foi dedicada à História da Infância e das Mulheres na América Latina. Professora e coordenadora pedagógica na Educação Infantil por mais de vinte anos, hoje atua na formação de professores nos cursos de Especialização em Coordenação Pedagógica da UFPR e no curso de graduação em Pedagogia, também da UFPR. É coordenadora do Projeto de Desenvolvimento Infantil do Mamaworking. Criou e coordena o coletivo “Bonequeiras sem Fronteiras”, dedicado ao direito de brincar na infância e acredita no poder do afeto.

 

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