“minha nova vida” – relato de Grace Barbosa (Maezíssima)

Neste episódio da série “Minha nova vida”, a história de Grace Barbosa, Editora-chefe do Blog Maezíssima (www.maezissima.com.br) e sua filha Julia.

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Crédito da foto: Evary Leal

Eu fui mãe aos 30. Não faço ideia do que é ser mãe em outra idade, mas, para mim, aos 30, no meio de uma pequena estabilidade financeira, profissional e amorosa, era para significar uma coisa apenas: tranquilidade. Achava realmente que depois de viver todas as revoluções que precisava na faculdade, conquistar um bom emprego, morar sozinha há um bom tempo, achar um homem que seria um bom pai: essa era a hora certa. Não parecia tão complicado.

O problema é que sou de uma geração de mães de primeira viagem superinteligentes, diplomadas e tal, totalmente preparadas para a carreira e a autonomia, mas totalmente despreparadas para ser mãe.

Eu não estou aqui falando de trocar fraldas, dar banho no bebê recém-nascido ou sobreviver às cólicas, esses são desafios para qualquer mãe de primeira viagem. Estou falando daquele medo absurdo de se tornar responsável por outro ser. Saber que alguém depende completamente de você para continuar vivo ou não. Sim, você pode fazer algo muito errado e essa criatura linda não sobreviver, ou ser infeliz, ou ser uma pessoa má. E vai ser sua culpa, porque ele está ali, puro como diamante, nos seus braços.

Estou falando da solidão de não conseguir sair de casa, por não saber como, por ter vergonha de quando o bebê chorar (sim, eu tive isso inúmeras vezes), por não saber como amamentar, carregar as tralhas. Estou falando do cansaço físico sem tamanho, da exaustão e a sensação de que a maternidade não poderia ser o que eu estava vivendo. Algo me dizia: “Menina, isso não deve ser feito dessa forma. Não está certo. Não é desse jeito”. E aos poucos fui entendendo que, realmente, aquele não era o jeito certo. Pelo menos não para mim.

A questão chave é que depois do parto, quando o bebê deixa de ser uma barriga da mãe, acontece uma quebra abrupta na vida dessa mulher. Antes ela interagia com outras pessoas, passeava, tinha uma certa autonomia. De um dia para outro, isso muda drasticamente. No lugar da autonomia da mulher entra uma exigência de um recém-nascido. Eu sei que amei a Julia todos os dias, mesmo nos mais difíceis, mas não estava pronta para viver isso. Não sabia como viver.

É difícil aceitar que você não está preparada, que não está dando conta de toda a carga emocional. Para mim, isso só se resolveu no contato pele a pele com outras mães, mais experientes ou não. Nas horas de salivas e lágrimas em rodas de conversas e com a presença de muitas outras mulheres. Aprendi a nos amar enquanto gênero e espécie. A valorizar cada contorno da nossa personalidade de mulher e de mãe.

Não acredito que toda mulher tenha que passar por uma grande mudança com a maternidade. Cada história de vida é tão única, tão singular, que qualquer generalização é bobeira. Mas sei que descobri meu melhor lado quando me tornei mãe. Não porque sou especial, mas porque andava incompleta, pela metade, antes da minha pequena.

Já se foram três anos que mais parecem outros 30. Mudanças nunca nos encontram sozinhas. A estabilidade financeira deu lugar para o empreendedorismo. O emprego fixo foi para o espaço junto com as economias da família. O casamento precisou se fortalecer para aguentar o tranco da falta de grana, planejamento e conhecimento. Passei pela pior barra da minha vida quando perdi minha mãe para o câncer. Ser mãe sem ter mãe, às vezes, dói até os ossos.

Fui mãe de primeira viagem aos 30 caindo num mundo que nem fazia ideia que existia, e renascendo todos os dias mais forte, resiliente, feliz. Não apenas pela maternidade que me aconteceu, mas sem dúvidas ela fez toda a diferença.

Somos nós que damos a potência para o acontecimento ser transformador. A maternidade pode ser um divisor de águas se você aceitar se lançar sem reservas, mergulhar até onde os dedos dos pés soltam o chão. Perder o controle para se integrar ao fluxo da vida.

Grace I. Barbosa, escritora, jornalista, responsável pela Mãezíssima

 

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