“MINHA NOVA VIDA” – relato de Cleo Kuhn

Muitas histórias de mães chegam aos nossos ouvidos no Mamaworking. Algumas são simplesmente incríveis. Elas nos fazem pensar nas mudanças profundas que ocorrem na vida de toda mulher ao ter filhos. São histórias de força, coragem e amor, que calam fundo na gente. Talvez porque funcionam como espelhos, em que todas nós reconhecemos algo da nossa própria experiência de ser mãe. Neste episódio da série “Minha nova vida”, a história da Cleo Kuhn e Francisco (3 anos).

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 (foto de Yara Amaral)

                 A gravidez foi uma surpresa pra mim. E não foi uma surpresa boa.

(Cleo Kuhn – mãe do Francisco)

A aceitação de uma gravidez não planejada para uma mulher de 35 anos e instruída foi profundamente difícil para mim e levou muito tempo. Independente, autônoma e dona dos próprios passos, abrir mão do que eu havia conquistado foi assustador. Sentia vergonha, me sentia uma adolescente irresponsável, inconsequente.

A primeira coisa que fiz foi pedir licença ao meu filho em gestação: “Mamãe já volta, mamãe te ama, mamãe só não consegue se amar agora, mas ela volta”.

Depois, guardei em segredo o primeiro trimestre e não permitia, aos poucos que sabiam da minha gravidez, que falassem sobre nada relacionado ao bebê. Isso me causava raiva e muita, muita culpa. Só conseguia me abrir com as mulheres que, como eu, rompiam a barreira do silêncio, a cortina rosa da divindade materna. Não havia nada de divino naquele momento. Eu estava infeliz e chorei todos aqueles meses no meu apartamento, sozinha, longe dos julgamentos alheios.

E quando precisei contar o que estava acontecendo às pessoas, que não entendiam o porquê de tanto mal estar e da mudança no meu comportamento social (ausência e abstinência), iniciou-se outro processo que me irritava: meu corpo já não era meu, minha barriga era de domínio público. Pessoas que eu mal conhecia começaram a me tocar, a me parabenizar, a me dizer como seria minha vida, numa voz infantilizada. Tudo parecia tão suave, tão fofo!… Mas não era. Era agressivo. Como alguém que não sabia nada sobre o que eu estava passando podia se sentir no direito de me invadir daquela forma?

(Abro um parêntesis para lhes dar um conselho: quando virem alguma mulher grávida, tenham compaixão e mostrem uma reação compatível com a reação dela. Economizem seu manual verbal e ofereçam uma cumplicidade silenciosa, revelada num sorriso.)

Minha estratégia psicoemocional a partir de então foi tratar tudo com racionalidade. Me concentrei em cuidados médicos, preservação da saúde (minha e do meu filho) e estudar, estudar muito sobre tudo aquilo. Preparei minha casa; organizei planilhas do enxoval; visitei amigas que eram mães; pesquisei listas de utensílios básicos e eliminei os supérfluos; fiz curso de gestante, de amamentação; visualizei nosso futuro pós-parto e escolhi a escola. Pronto, estava tudo organizado, meu filho estava encaixado em minha vida.

Mas, ah! não é de razão que é feita a maternidade. E um filho não se encaixa em nada, filho é surpresa mesmo, que regenera até um coração queimado, solidifica as cinzas e devolve a intensa cor da vida, outrora opaca. Filho é amor que bomba nas veias, mesmo naqueles corações que precisam ser reanimados. E o amor tem diversos contornos, sons e movimentos…

A primeira semana após o nascimento do meu filho foi apavorante, desumana! Tanta exaustão física diante daquele desafio de manter uma criatura viva, porque, de alguma forma, já era impossível imaginar-se sem ela.

Mas eu não me apaixonei no parto, como tantas mulheres dizem. Não foi um amor instantâneo. Minha personalidade materna foi construída, foi descoberta, foi desvendada dia após dia. Eu fui conquistada. Meu cenário foi invadido, minha autonomia compartilhada, o eu virou nós. As decisões agora não eram tomadas só pra mim. Viver deixou de ser um direito, era uma obrigação, que se transformou em súplica: por favor, permita que eu viva por muito tempo, permita que eu fique aqui com ele, permita que eu ame mais do que qualquer verbo consiga descrever!

Francisco não se encaixou na minha vida, foi minha vida que se encaixou no Francisco. Quando aceitei esta verdade, me tornei mãe.

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2 thoughts on ““MINHA NOVA VIDA” – relato de Cleo Kuhn

  1. Nunca um texto foi tão fiel ao que passei. Não tive lágrimas trancadas no seu apartamento (me compadeço a vc). Mas racionalizei tudo, fiz planilhas pra tudo, li sobre o que seria melhor: família, baba, escola. Criei uma regra e segui em frente. E aprendi depois que ela nasceu que nunca tive controle sobre nada, e minha filha deixou isso claro. Primeiro deixei com família, depois com a baba e depois na escola. E agora acho que o melhor seria ela ficar comigo todos os dias o dia todo, e estou buscando formas de não terceirizar a minha vida. E eu só me tornei mãe de verdade quando eu entendi que a vida não pode ser planilhada.

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