Maternidade e trabalho: mais delicadeza, por favor.

 

tumblr_mdi3yhbmWg1qly34wo1_1280Pise com delicadeza, pois você caminha sobre meus sonhos.” (W.B. Yeats)

Mães que trabalham. Reunidas em uma só categoria, mulheres de realidades tão diversas: estudantes, autônomas, funcionárias, mães solteiras, mães de um, mães de cinco, bem-sucedidas, mal pagas. Mães que amam seu trabalho, mães que não tem outra opção na vida. Professoras, médicas, atendentes em lojas, diaristas, psicólogas, executivas, vendedoras, cozinheiras.

Mães que trabalham. Mesmo levando em consideração a diferença na qualidade das soluções possíveis para cada uma, todas passam pelo mesmo drama: o que fazer com meu filho agora que eu tenho que retornar ao trabalho? Como voltar a ser a mesma pessoa depois dessa revolução que aconteceu na minha vida? E, principalmente, o que vai acontecer com esse bebê longe dos meus braços, longe dos meus seios, longe de mim, que sinto o que ele sente, que sei o que ele precisa?

Se depender da ciência, parece que podemos ficar tranquilas. Uma pesquisa americana ganhou recentemente a atenção da mídia por afirmar que os efeitos de uma mãe que trabalha fora de casa são benéficos para seus filhos: as meninas se tornam profissionais bem-sucedidas, enquanto os meninos crescem para ser adultos mais interessados nos afazeres domésticos. Como um tapinha amigo nas nossas costas, as manchetes dizem, sorridentes: livre-se da culpa! Sua filha vai ganhar bem e seu filho vai aprender a lavar a louça. Tudo ótimo, nada errado. Agora, termine o relatório e pare de se queixar.

Culpa. Parece fácil falar em culpa, um sentimento incômodo e desnecessário, embaraçoso até. Culpa é contraproducente e fora de moda. Mas ainda não vi na mídia nenhuma pesquisa falando de algo muito mais profundo, mais subjetivo, e socialmente tão inaceitável quanto a culpa: a dor. Um sentimento muito mais presente, tanto na mãe quanto no bebê que são forçados a um rompimento tão brusco, tão cedo, de uma relação que é pura simbiose. E assim como a culpa, a dor também é um incômodo a ser rapidamente anestesiado para que não atrapalhe o ritmo dos nossos afazeres. O que nos esquecemos, entretanto, é de que a dor normalmente nos traduz, num alerta desesperado, que alguma coisa está muito errada, sim.

E por que tanta dor? Laura Gutman, psicopedagoga argentina, nos diz que o bebê é um ser fusional. Quando nasce, seu corpo físico separa-se do corpo de sua mãe, mas emocionalmente ambos permanecem fundidos como se fossem um só ser. Segundo a autora, esse estado permanece inalterado por aproximadamente nove meses e é só por volta dos dois anos que as crianças dão um salto em seu o processo de individuação, começando a lenta separação emocional que se inicia com a primeira noção do “eu sou” e só se completa na adolescência. Por toda a infância, portanto, a criança e a mãe dependem um do outro para existir.

Pois então, como se separa dois seres fundidos em um só? Todos os verbos que me vem à mente remetem à muita dor. Arrancar. Rasgar. Partir.

E o que se espera da mulher que retorna ao trabalho, ao fim de parcos quatro meses de licença-maternidade? Que arranque o bebê de seus braços, que seque seu leite e recolha suas lágrimas, entre todos os outros fluídos que nos atentam ao fato de que somos mais animais-humanos do que trabalhadores-máquinas. Que bata seu cartão às oito, e disfarce as noites em claro, o choro na porta da creche, as febres, os momentos perdidos, as dúvidas, os medos. E a dor. Porque trabalho e família não se misturam. Porque até sua chefe já passou por isso, e com muito orgulho, diz que todos sobreviveram.

Talvez a reposta esteja simplesmente em pararmos de negar nossa humanidade. Somos mães, somos pais, somos filhos, somos cuidadores, da mesma forma que queremos ser profissionais. Temos vínculos, necessidades, responsabilidades que fazem parte de quem somos, dentro e fora do mundo do trabalho. Licença de pelo menos um ano, horários flexíveis, ambientes profissionais adaptados para a presença de crianças, valorização do trabalho da mãe que fica em casa, apoio
a mães estudantes são algumas das muitas medidas que podem ser tomadas para apoiar a maternidade.

Mas acima de tudo, precisamos ter consciência de que não existe nenhum acontecimento que afirme tanto nossa humanidade –e a interligação de nossas vidas – quanto o nascimento de uma nova pessoa. Como diz Laura Gutman, talvez os adultos devessem aprender com os bebês que somos todos uma coisa só. E que cuidar com delicadeza de quem cuida de outro alguém é cuidar de todos nós.

Adriana Barretta Almeida é psicopedagoga, mestranda em Psicologia da Educação na UFPR, formada também em Linguística e Artes Visuais. Atua em educação já há mais de 20 anos. E é coordenadora do espaço infantil no Mamaworking. Mas sua maior (e melhor) escola se chama Thomas e fez 6 anos em abril.

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One thought on “Maternidade e trabalho: mais delicadeza, por favor.

  1. Reblogged this on Lótus Materna and commented:
    Me identifiquei muito com este texto! Sinto que o tempo todo somos obrigadas a negar nossa humanidade, nossa maternidade… Sobrevivemos às custas de muita dor e falta de compreensão da sociedade. Um texto para todas as mamães que trabalham e para todos que conhecem mães que trabalham. Boa leitura! 😉

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