“Crianças aprendem o que vivem”

2015-07-01_2106

 

 

 

 

 

 

 

Não existia. Mas porque o amaram chegou a ser. 

Rainer Maria Rilke

Se você tem trinta anos ou mais é bem provável que tenha em algum momento se deparado com o pequeno mas muito popular texto da escritora americana Dorothy Nolte intitulado “Crianças aprendem o que vivem”. Dorothy escreveu este texto para sua coluna em um jornal da Califórnia em 1954 e de maneira incrível em tempos de divulgação impressa o texto “viralizou”, sendo traduzido para vários idiomas, estampado em calendários, livros, revistas, produtos para bebês e múltiplos meios. Quem não se lembra da simplicidade de seu conteúdo?

“Se as crianças vivem sob críticas, aprendem a condenar.
Se convivem com a hostilidade, aprendem a brigar.
Se vivem sendo ridicularizadas, aprendem a ser tímidas.
Se vivem com vergonha, aprendem a sentir culpa.
Se as crianças vivenciam a tolerância, aprendem a ser pacientes.
Se vivenciam os elogios, aprendem a apreciar.
Se vivenciam a aceitação, aprendem a amar.
Se vivenciam a aprovação, aprendem a gostar de si mesmas.
Se convivem com a sinceridade, aprendem a veracidade.
Se convivem com a equidade, aprendem o que é justiça.
Se convivem com a bondade e a consideração, aprendem o que é respeito.
Se as crianças vivem com segurança, aprendem a ter confiança em si mesmas e naqueles que as cercam.
Se as crianças convivem com a afabilidade e a amizade, aprendem que o mundo é um bom lugar para se viver.”

São mais de sessenta anos nos separando de Dorothy e sua máquina de escrever, mas mesmo com as brutais diferenças que apartam nossos mundos ainda há algo ali, naquelas palavras, que parece continuar a fazer sentido.

A ideia de que é no lar que se produzem as marcas fundamentais para nossa maneira de “chegar a ser” é tão simples quanto poderosa.

Entendido aqui não como o espaço que guarda nossas coisas, mas como espaço que protege nosso aprendizado do afeto e da convivência, que acolhe a nossa descoberta de si mesmo e do outro, o Lar é, ou poderia ser, o palco perfeito para os exercícios da ternura, da aceitação, da honestidade com os próprios sentimentos, da tolerância e também do limite, do cuidado com o outro e da responsabilidade pessoal. E neste jogo, que se chama crescer, crescemos todos, pais, mães e filhos.

Um lar positivo não é um espaço artificialmente programado para que “mensagens positivas” se introjetem na criança, tampouco é um lar onde a harmonia e a alegria reinam perenes, isto não existe. Mas é o lugar no qual a busca pela confiança mútua é tamanha que permite a todos a expressão, a escuta e sobretudo a “aposta” na potência que existe no outro.

E aqui nós, pós-modernas ou o que seja, nos reencontramos com a velha Dorothy para dizer que sim, crianças que vivem sob a aposta de que nelas habita um universo de possibilidades de “ser-mais”, aprendem que mesmo num mundo complexo e imperfeito é possível ser feliz.

Sobre a autora deste texto:

Andréa Cordeiro é pedagoga e Doutora em Educação pela UFPR. Professora e coordenadora pedagógica na Educação Infantil por mais de vinte anos, hoje atua na formação de professores nos cursos de Especialização em Coordenação Pedagógica da UFPR. E é autora do Projeto Infantil do Mamaworking.

 

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3 thoughts on ““Crianças aprendem o que vivem”

  1. Parabéns pelo texto! Compartilhamos na nossa página do Facebook porque compartilhamos da ideia sobre um ambiente saudável para que as nossas crianças cresçam. Estigmatizá-las só reforça aquilo que os pais querem que não apareça nelas.

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